sábado, 15 de abril de 2017

Meet me in Montauk




Desceu do trem sem olhar para trás. Pés caminhando seguros, indo um a frente do outro, em uma marcha de quem sabe onde se vai, mesmo nunca tendo estado ali. Ali era apenas mais um lugar, como seria o proximo e o proximo e assim por diante. Ela sabia um local que nunca se esteve em breve poderá ser a sua nova casa, para depois ser apenas uma memoria.

Ele não desceu. Ele não se mexeu. Ele continuou a olhar os passos dela enquanto ela caminhava para o desconhecido. O trem em que estava só andava para trás e a cada nova estação, um novo lugar antigo, uma nova memória desenterrada. Ele já conhecia tudo, ele só não queria esquecer.

Ela vivia o novo, andava para frente,  sabendo que o passado e as memorias sempre estariam la para serem visitadas. Ele vivia o passado, vivia de memórias, olhando para trás, sabendo que o novo sempre estará ali esperando para ser vivido.

Indo um para frente e outro para trás, se encontraram na metade do relógio e viveram um segundo como se fosse o infinito. Mas eles sabem, o relógio tem duas metades.


terça-feira, 11 de abril de 2017

A Terceira Margem do Rio










Dizem que ao entrar em uma casa que você já viveu antes, você poderia se encontrar com seu "eu" mais novo e isso poderia ou causar uma catarse, ou deixar você desnorteado.

Se ao adentrar minha casa na rua Francisco da Cruz Maldonado em São Sebastião, eu encontrasse meu eu de 12 anos, escrevendo sobre uma escrivaninha, criando mundos e desenhando barcos, me puxaria de lado e teria uma conversa séria. Essas são oportunidades únicas, se encontrar mais novo e poder dar dicas de como se preparar, do que fazer, do que não dizer. Você vai poder mudar o amanhã, melhor ainda, o seu amanhã.

Mas eu precisaria pensar muito para saber o que dizer. Se eu falar demais uma das coisas que me fez ser a pessoa que sou hoje pode não existir e ai, será que se eu me encontrasse mais novo daria a mesma dica? E se eu disser de menos? Será que estaria perdendo a maior oportunidade da minha vida? Será que não seria bom me privar de algumas dores, de algumas cicatrizes, de algumas das minhas maiores tristezas?

O que fazer? Devia falar do primeiro amor, para que eu soubesse que a dor de acreditar que algo era para sempre e perder, iria passar. Devia falar que talvez eu não devesse me jogar tanto nos relacionamentos, quem sabe me guardar um pouco, evitar sofrimentos. Devia falar para não desistir dos meus sonhos, que eu vou encontrar um outro caminho, a terceira via, a minha via. Que uma hora tudo vai acabar fazendo sentido e que todas as frentes que eu abrir darão frutos, afinal, nem todo fruto é dinheiro. Devia dizer que talvez valesse a pena pensar no futuro, me resguardar, cuidar das finanças e da saúde. Não abusar. Não achar que serei sempre o super homem, sem sentir cansaço, achando sempre que o dia é muito curto para mim.

Talvez ainda devesse dizer que minhas molecagens precisariam parar mais cedo. Que eu devia me ver como um homem, maduro antes. Que a idade passa voando, que o tempo não volta e que a sensação de o ter perdido iria me acompanhar sempre. Devia dizer que talvez fosse bom focar mais em pequenas coisas, me especializar, que o "Jack of all trades, master of none" um dia fica velho, fica batido.Cantar em todos os estilos, não te garante ser o melhor cantor em nenhum.

Devia dizer para nunca deixar de ir ver minha mãe. Não importa o cansaço, não importa as dificuldades. Cada viagem vale a pena, cada viagem vinha coberta de amor, de carinho, de compreensão. Que cada momento que passarei com ela em minha vida adulta vai ser uma pequena mostra da pessoa incrível que ela é, que ela foi. Devia dizer que vai valer a pena, que ela conseguiu colocar bons valores em mim, que me fez ser uma pessoa boa, uma pessoa melhor. Ela até me fez comer de tudo. Dizer que ela me fez um sonhador, um esperançoso, uma pessoa crente no melhor das pessoas, na vontade que todos temos de sermos pessoas melhores, todos os dias. Dizer que ela me fez crer que a vida pode ser melhor, mais simples, mais feliz e mais unida, não só para mim, mas para todos.

Mas não. Nada disso seria correto dizer. Cada uma das coisas que eu havia pensado em dizer, na verdade, precisavam acontecer para eu chegar em quem eu sou hoje. Cada dor, infinita, que eu tive, ao não me derrubar de vez, me fez encontrar belezas e fez florescer em mim sensações e emoções mais puras, e entender que ao me entregar a cada uma delas, de peito aberto, eu não estava fraquejando, sendo a parte inferior, mas sim, sendo o meu eu mais forte, o meu eu mais verdadeiro, o meu eu mais eu. Eu não sou de esconder emoções, eu não sou de buscar fazer coisas que machuquem os outros. Eu sou preocupado com todos, eu quero todos bem, eu quero todos felizes. Eu procuro sempre seguir minha bussola moral. Fazer o certo, me faz feliz. E esta é uma felicidade por inteiro, sem ranço, sem fundo de chateação, sem mágoa. Nenhuma felicidade pode ser inteira, se você magoar alguém para isso.

Pensei muito, olhando meu pequeno eu de 12 anos desenhando os barcos que havia visto naquela manhã na praia. Me diverti em reparar que ainda usava a mesma prancheta. Não sei porque, mas sempre amei pranchetas. E assim, olhando para mim, sem pensar em mais nada, percebi o que deveria dizer. Me chamei, virei a cadeirinha que meu eu de 12 anos usava, abaixei para ficar na mesma altura e olhando nos meus olhos disse:


"Pequeno Mário, seu caminho não será tão fácil como agora possa parecer. Ele será marcado por profundas tristezas, por longos períodos de dificuldade e por caminhos muito incertos. E tudo isso está bem, tudo isso fará parte, será importante e te fará crescer. Você tem doze anos, eu tenho trinta e seis, e sei que hoje, ainda não sei que caminho devo seguir. Ainda me perco. Mas se eu posso dizer apenas uma coisa para você, para te manter tranquilo com tudo que virá a seguir é nunca se impeça de amar. Você esta no caminho certo, você já sabe que essa força é muito maior que você. Mas saiba que ela te corresponde também. Que quando a luz parecer fraquejar, quando a escuridão chamar seu nome, o amor das pessoas à sua volta fará você encontrar o caminho de casa. O amor dos seus amigos, da sua irmã, de pessoas que você nem imaginava, este amor, vai te guiar e antes que você perceba, o chão que parecia ter sumido sob seus pés estará de volta, te mantendo firme. O que o futuro te reserva eu não sei, eu não sei o que será de mim saindo daqui, mas eu sei que você está no caminho certo. E que seus companheiros de caminhada te amam muito mais do que você poderia saber e que este amor faz tudo valer a pena. Acredite sempre em você, na pessoa que você quer ser, e no amor que você pode dar para o mundo."

Sei, hoje, que eu só absorvi uma parte muito pequena dessa conversa, mas ela sempre ecoou em minha cabeça. Me deixei desenhando de novo, coloquei meus fones de ouvido, dei play e sai andando da minha antiga casa, de volta para minha vida de 36 anos. A casa, agora, não era mais minha, era de alguém, alguém que eu nunca vi, e somente as sombras do meu passado estavam ali. Um passado mais simples, de muita felicidade. Andei até o final da rua e segui minha vida. Cantarolei, baixinho, sem perceber.



And in the end

The love you take
Is equal to the love you make


sexta-feira, 31 de março de 2017

Writing Heals

(or the blue french horn)






*contem spoilers*



O Ted não deu trompa azul para a mãe dos filhos dele. Ele deu para quem seria no final o grande amor da vida dele, ele deu para Robin. A relação deles veio e foi em momentos diversos. Desde o começo da série você sabia que eles eram feitos um para o outro e as vezes não entendia porque eles não ficavam juntos. O que acontece é que a vida é também assim. As vezes ela é simples e pratica como foi para o Marshall encontrar a Lilly. De cara eles perceberam que um era o amor da vida do outro. E ainda assim, mesmo sabendo disso, eles passaram um longo ano separados. Esse ano derrubou o Marshall que passou meses e meses sem dar um sorriso se quer. Ele sabia o que havia perdido e também sabia que naquela hora ele não tinha muito o que fazer, tinha de esperar, dar o espaço e o tempo que a Lilly precisava para se encontrar.

Com o Ted a coisa foi sempre diferente. Ele sempre quis ter o grande amor da vida e acreditou que ele havia encontrado na Robin. E eles tentaram, e tentaram algumas vezes. Mas apesar do obvio amor, apesar da química ideal e da amizade e companheirismo, as coisas nunca pareciam se encaixar para eles. Períodos bons e rompimentos doloridos. E isso fez o Ted passar a acreditar que o grande amor da vida dele estava em outro lugar. Era outra pessoa.

Durante toda a série os dois mentiram para os amigos e principalmente para si mesmos dizendo que não gostavam mais um do outro, que podiam ser só amigos. Mentiram tão bem que eles mesmos acreditaram.Seguiram suas vidas, as vezes mais próximos como amigos, as vezes mais distantes com o passar do tempo. Casaram-se. E não se casaram com pessoas quaisquer, casaram onde valia a pena, no que fazia sentido. Pessoas incríveis e construíram histórias maravilhosas, mas o amor entre eles nunca morreu. Eles sabiam. Sempre souberam, só não conseguiam admitir. Criaram muros, isolaram esse sentimento, mas ele não morreu. Ele continuou ali, quentinho, esperando ser redescoberto, ser encarado de frente e compreendido.

Quantas vezes eles foram e voltaram até parecer desistir? Eu não me lembro mais, mas pareceu sempre que eles corriam um para o outro e se desencontravam. E as tentativas que eles tiveram foram todas importantes, mas no final um não estava tão pronto quanto o outro para aquilo naquele momento, ou um achava que estava mas não estava, ou faltava maturidade e os medos e inseguranças dominavam. As vezes se demora uma vida inteira para se estar no ponto que se sabe que precisava e queria estar desde o começo.

Mas seja você a Lilly, o Marshall, o Ted ou a Robin, o que fica é que o amor importa, o amor espera e resiste, não importa a quantidade de coisas que coisas que você coloque por cima dele, ele sempre vai estar lá. E sem perceber a sua vida vai te colocar na posição de olhar de frente para ele e entender que ele sempre vai estar ali e que tudo que você tem de fazer é se entregar.

Afinal, o Ted deu a trompa azul para a Robin, No primeiro episodio e no ultimo. Porque sempre esteve lá e sempre estará.


domingo, 8 de janeiro de 2017

Mal do século





2016 foi um ano estranho. Acho que todos podemos concordar. Por mais que para alguns tenha sido um ano de novidades ótimas: filhos, novos empregos, casamentos, o cenário mundial nos trouxe uma enxurrada de derrotas consecutivas. Sei que muitos dirão que o para eles, nesse sentido, a coisa foi boa, tiveram as vitórias que procuravam, fossem elas o impeachment no Brasil, o Brexit na Inglaterra ou a vitória do Trump nos Estados Unidos. Mas acredito que quem comemore estas vitórias agora, falte uma visão geral e de longo prazo.

No país, o vice presidente que assumiu o cargo já mostrou que provavelmente não tem o melhor dos interesses para as camadas mais pobres fazendo mudanças em leis e dando como motivo a austeridade da situação, ao mesmo tempo que aprovam aumentos de salários para funcionários públicos específicos que já tinham uma carteira bem inchada. E o pior, tem gente que esta de acordo, que acha que foi bom, congelar gastos em áreas de extrema importância e que já não iam bem no país, como educação e saúde. Ou concordam com as novas leis de trabalho e aposentadoria. Ai fica difícil não só defender, como entender. Na Inglaterra, a votação para a saída da União Européia foi um choque para o mundo.E tudo articulado por um cara que dizia que a Grã Bretanha vinha perdendo dinheiro enviando para a zona européia. No fundo, o que pesou mais na balança foi o medo do cidadão comum dos refugiados sírios que vinham subindo pela Europa e da probabilidade da Turquia ser a próxima a entrar na zona comum européia. De novo, não se levou em conta o longo prazo, o caráter dos novos tratados comerciais que precisarão ser feitos e como as vantagens que outra hora se tinha, agora podem ter sido perdidas. Ah sim, para fechar, Trump. Que muito mais despreparado que sua concorrente direta, soube levantar votos das pessoas que não se sentiam mais representadas. Pessoas presas pelo passado e suas vantagens que não pareciam mais existirem. E Trump nem entrou ainda e já enfiou o pé pelas mãos pelo menos umas 4 boas vezes. Isso só por estes lados. Se pensar no oriente, a situação Síria piorou muito, a Coréia do Sul teve um escândalo político absurdo, a Rússia vem colocando cada vez mais as manguinhas de fora e apontando para problemas próximos com a Otan.

Mas se isso já não fosse ruim o suficiente, o meu campeão do ano foram as redes sociais. Na verdade, eu acredito que venha em um crescente. Não sei se piorou de verdade, ou se o eu só parei para prestar mais atenção agora, mas a impressão que dá é que é impossível fugir do chorume que viraram as redes sociais. E parece ser um fenômeno mundial. Não importa sobre qual seja o assunto vai ter alguém que acredita saber mais do que quem está postando, que acha que a opinião é mais importante, ou só alguém que precisa desfilar toda a sua sapiência para os outros. E tudo é uma ofensa pessoal. Seja o que iniciou os comentários, seja alguém mostrando o que foi dito esta errado, é tudo pessoal. Aí é melhor estar preparado para uma enchente de xingamentos e ataques.

Não sei quem foi que falou que sua opinião importa. Claro, importa para seus amigos mais próximos, parentes. Mas para o mundo? Dificilmente. Quando as redes sociais não existiam, se tinha algo que acontecia no mundo, no máximo você comentava sobre o que você havia pensando sobre determinado assunto com um ou dois amigos, a galera mais próxima. Mesmo quando as redes sociais começaram a surgir com mais força, você era obrigado a escolher uma comunidade específica para dar sua opinião, e ainda assim, só quando estivesse em casa, perto de um computador. Isso dava trabalho, não valia tanto a pena. Foi só quando os celulares e o 3G ficaram mais comuns que as coisas começaram a degringolar de vez. Agora você esta na rede social 24 horas por dia, todos os dias. É impossível fugir, porque grande parte das coisas acontece via as redes sociais. Até a política está sendo regida a partir das redes sociais. E isso está afetando cada vez mais a gente.

Não acho nada difícil você ter dado unfollow em um amigo ou parente no facebook este ano. Ou deixado de seguir algum famoso no twitter, ou instagram, por algum comentário imbecil que o mesmo fez, ou pelo jeito que o mesmo se portou em algum assunto importante. Posso dizer da experiência pessoal que isto vem me afetando desde as manifestações de 2013. De repente éramos todos especialistas em política. Um país razoavelmente novo na democracia, que sempre ligou muito pouco para política, que odiava o fato do voto ser obrigatório e agora todos sabemos de tudo e a minha história é obviamente muito melhor que a sua. O famoso jogo do "A gente" contra "Eles". E o que dizíamos, os comentários em posts ou matérias, eram incabíveis, inconsequentes, absurdos e ultrajantes. Descemos ao fundo do poço e chegando lá começamos a cavar. 

O engraçado é que estamos, ou deveríamos, estar todos do mesmo lado. Todos queremos um país melhor, um planeta melhor. Pessoas melhores, melhores condições, mais saúde, mais dinheiro para todos, mais qualidade de vida. Afinal, estamos todos no mesmo barco, chegamos todos sem saber o que queremos fazer ou porque estamos aqui e precisamos encontrar um significado, um chamado, uma vida para se ter. E claro, podemos chegar as mais diversas explicações para estas dúvidas e nenhuma vai estar mais certa que a outra. Assim como podemos pensar nos mais diversos caminhos para melhorar a vida de todos, e sem testar, nenhum vai estar mais certo que o outro. Mas ao invés de pesar o que está dito é melhor xingar e dizer que a pessoa não tem ideia do que tá falando.

Essa toxicidade que as redes sociais atingiram acaba fazendo mal para a saúde mental e, em algum casos, até física. Para mim isso foi bem claro, passei tanto tempo me preocupando com os posts políticos, quem tinha dito o que, como tal pessoa tinha me decepcionado, os absurdos, os "como é que não percebe que", e tudo isso enquanto as coisas degringolavam de vez no país. Isso foi me fazendo dormir pior, fazendo ficar meio deprimido. E com as pessoas que eu conversava, todas estavam passando por isso também. Quem sabe um dia isso tenha até um nome, algo como o "mal du siécle".

E não é que eu acredite que as redes sociais só tenham um lado ruim. Acho que até é mais pelo contrário, o começo das redes sociais eu só via o lado bom, reencontrar pessoas, o contato constante, poder postar coisas interessantes e que as pessoas pudessem tirar algo de legal ou interessante para a própria vida. Mas a sensação que me dá agora é que nós não estávamos prontos para as redes sociais. Não estávamos prontos como civilização mesmo. Falta respeito, falta educação e, principalmente, falta noção. Noção de que por mais verdade que seja uma coisa, você pode deixar de falar ela quando o momento não é apropriado, ou quando não vai ajuda em nada a situação. E noção que provavelmente sua opinião realmente não importa. Se não te pediram, se não é uma pergunta aberta, e se não vai adicionar nada de valor, provavelmente o melhor é você fica quieto. Sua opinião, na maioria das vezes, não importa. Importa para seus amigos mais próximos, para seus pais, familiares, mas no geral, não importa.

Dado que as redes sociais não parecem estar acabando, e ainda existe muito de bom que se pode tirar delas, talvez, o mais importante seja saber pesar e regrar o quanto elas te afetam no dia a dia. Tentar ter uma atitude saudável em relação as redes sociais, saber se afastar e não ficar o tempo todo saltando de uma rede social para outra. A toxicidade não deve acabar tão logo e o melhor caminho para se tentar ter conversas interessantes e produtivas, seja on line, seja na ao vivo, é tentar ter empatia e entender com quem você esta conversando, quais são as experiências que esta pessoa teve para ver o mundo como ela vê. Se cada um ao invés de aumentar o problema, souber um jeito de tranquilizar o calor da conversa, quem sabe aos poucos a educação vá chegando e os debates, conversas e idéias possam florescer. Com isso, todos vão sair ganhando.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Por um futuro melhor









Os sábados passavam muito rápido. Era logo no começo da tarde que eu colocava no canal USA e acompanhava varias e varias horas de Jornada nas Estrelas. Quando olhava para fora, já era noite. Nem tinha visto passar. E era uma delicia. Não poderia ser chamado de binge watch porque os episódios dificilmente eram sequenciais e, além disso, eram séries diferentes. Por um tempo passou dois episódios de Nova Geração, dois de Deep Space Nine e 2 de Voyager. Eu não fazia planos de assistir todos, nem pensava que iria ficar tanto tempo assistindo. Só acontecia. O episódio seguinte era bom, eu me distraia e quando percebia, já estava preso por um anzol.

Mas essa ligação com a série vinha de antes. De muito antes. Minha mãe adorava a série clássica. Cresceu com uma quedinha pelo capitão Kirk e sempre que podia, assistia. Ela tinha uma das mais invejáveis coleções de VHS que eu já vi, e me fez rodar a cidade atrás do VHS do ultimo filme de Jornada nas Estrelas que ela pode ver, em uma época que os DVDs já havia dominado todas as prateleiras. Não lembro como, mas encontrei, ainda bem.

Depois de assistir muito com ela, comecei a assistir sozinho, só para descobrir que vários amigos meus nutriam o mesmo gosto, tinham a mesma ligação. E ai vieram as convenções de Jornada no auditório Elis Regina. Começamos a ir alguns, não todos. Um pouco com medo de não saber como seriam essas convenções. Fomos tomando gosto. A coisa era feita por fãs e para fãs. Não tinha muita invenção não. Rolavam algumas ótimas palestras, tinha espaço para comprar coisas das séries e, o principal, passavam episódios que não estavam nem perto de passar por aqui ainda. Com o tempo, passamos a ser muitos de nós indo, encontrando até minha querida professora Alice lá, como boa trekker que é. Muito mais enturmados e conhecendo melhor como funcionavam as coisas nas convenções chegamos até a causar algum frisson e termos nossos minutinhos de fama.

Hoje, dia 8 de setembro, a série faz 50 anos. Cinquenta anos de uma série que foi cancelada na sua terceira temporada e que nunca mais saiu da cultura mundial. Passei essa ultima semana devorando tudo que eu pude de Jornada nas Estrelas. Um especial da Time Magazine super completo, especial do History Channel, um sem número de entrevistas, especiais dos capitães, reencontro de elenco, convenções famosas filmadas, episódios favoritos, livros, jogos, enfim, tudo que eu pude colocar minhas mãos. E claro, assisti ao filme novo também. Na estréia, como costumava ser.

Entendi um pouco mais do fenômeno. O momento em que nasceu a primeira temporada da série clássica era o momento certo. O criador havia lutado na guerra como piloto de bombardeiro e havia começado a carreira na televisão havia pouco tempo. As séries haviam começado a sair dos western e surgiam os primeiros sitcoms e séries de ficção científica. Essas séries miravam o público mais jovem e estavam ganhando audiência, parecia ser um território bom para se arriscar. A NBC não queria ficar atrás e encontrou em Jornada nas Estrelas a sua série para apostar. Produzida pela Desilu, produtora da Lucille Ball (de I Love Lucy), Jornada nas Estrelas seria cercada de polêmicas em seu casting: Um oriental, um russo, um escocês, um alienígena e uma mulher negra, liderados por um capitão que, apesar de americano na série, era interpretado por um ator canadense. Em plena guerra fria, em plena luta por direitos das mulheres, em plena luta pelos direitos dos negros.

Jornada nas Estrelas surpreendia. Seu primeiro episódio foi assistido por 47% das televisões norte-americanas. Mas o interesse na série foi caindo, a emissora mudava o horário e o dia que a série passava, sempre levando para um horário pior e pior. A série causava polêmica e não só no seu casting, mas principalmente nos seus temas. Tratava de temas adultos, ligado ao que estava acontecendo no mundo, forçando a reflexão. Além disso, teve o primeiro beijo inter-racial da televisão. Uhura e Kirk se beijaram e grande parte das televisões associadas do sul dos Estados Unidos preferiram não mostrar o episódio para não chocar seus telespectadores. Tentaram cancelar a série uma vez, no final da segunda temporada, mas o fãs não deixaram. Mandaram mais de 100 mil cartas para a NBC, além de acampar na porta pedindo o não cancelamento. Funcionou, mas só por mais uma temporada. Em 1969 a série clássica acabava.

Mas a série passaria de novo, e de novo, e de novo. Reprises e mais represes. Arrebanhando novos fãs a cada nova exibição. Lançou-se um desenho animado.  E ai veio Guerra nas Estrelas e era preciso entrar na esteira do filme. Surge o primeiro filme de Jornada nas Estrelas. O filme se banca e abre as portas para o segundo. O segundo vai incrivelmente melhor, um sucesso. Vem o terceiro, o quarto... Estava na hora de voltar para a televisão também, mas com uma nova geração, anos e anos depois. Os filmes continuam saindo. E novas séries surgem, com um capitão negro e uma capitã. Jornada sempre avançando e sempre fazendo como se não estivesse fazendo nada demais, seguindo o que é natural apenas, sem se auto referenciar, sem se festejar.

Mas as séries seguiram seus cursos. O número de canais nas televisões subiu muito. Mais produções, melhores produções, mais dinheiro investido, a concorrência fica apertada. A tecnologia inventada pela série já estava sendo alcançada. O fenômeno dos fãs, das convenções, dos cosplays, que Jornada havia trazido já estavam no mundo e funcionavam para muitas outras séries, filmes e diferentes mídias. Jornada precisava parar. Seus criado havia morrido ha muito e quem o seguiu pareceu ter esgotado o meio. Anos se passam e a gigantesca franquia cai nas graças do novo midas do cinema. 3 novos filmes. Sucessos de bilheteria. Jornada estava de volta, renovada, para os novos tempos. O humor, a ação e a aventura, todos no ritmo perfeito. Só não se pode descuidar e deixar que a série que sempre tentou nos fazer pensar, discutir e refletir, seja reduzida apenas a aventura. No ano que vem sai uma nova série também, que pode aprender muito com o que a televisão tem feito nos últimos anos. Não ter medo de nos forçar a pensar, não ter medo de ser pesada quando precisar ser, e sempre se manter a frente do seu tempo, como sempre fez.

Jornada nas Estrelas não é grande apenas pelo o que eu contei agora, ou por seus números, ou por seus episódios premiados, seus personagem inesquecíveis. Jornada é grande por nos dar esperanças. Esperança em um futuro melhor. não apocalíptico, onde os humanos aprenderam a ser o melhor que eles puderem para o bem um do outro, para o engradecimento da humanidade. Um futuro em que as diferenças não são ridicularizadas, mas sim celebradas, aceitas. Em épocas tão escuras como estamos vivendo, ter esperança  é muito necessário.


terça-feira, 15 de março de 2016

Nadar contra a maré

Aconteceu há dois dias, dia 13 de março de 2016, o que, provavelmente, foi a maior manifestação da minha geração. Quem sabe tenha sido a maior da história do país. Foram as ruas quase 3 milhões de pessoas. Isso é 25 vezes a população da capital da Islândia. É quase a população inteira do Uruguai. É mais do que a população de muitos países. É um mar de pessoas, em quase todas as capitais e em diversas cidades do interior. Ainda assim, é pouco mais do que 1% da população do país. Mas representa muito mais do que estes números e escancara o óbvio: uma insatisfação generalizada palpável. E tenha certeza, isso afeta tanto os de direita, quanto os de esquerda. Ninguém está feliz com a situação geral do Brasil. Mas os motivos parecem muito diferentes.

Esse post não vai entrar nos pontos importantes para um lado, ou para o outro. Tampouco pretende resolver a crise, unir lados ou ser um bastião da luta. O que não deve faltar pela internet são perguntas quanto a validade de se caminhar lado a lado com caras como Bolsonaro, Feliciano ou qualquer um que passe por perto de estar no mesmo saco que eles. Não devem faltar posts que falem se o fins justificam os meios ou se devemos nos preocupar com a força que os militares parecem estar ganhando a cada manifestação. Acredito também que peritos em política devem estar analisando se a presidente ainda tem gorvernabilidade, ou se os próximos passos que ela vai tomar serão todos focados apenas na permanência no poder, enquanto as medidas necessárias para o país caminhar social e economicamente vão sendo deixadas em segundo plano. E claro que sem nem pesquisar, imagino já os posts que vão falar sobre que momentos temerosos passando e como pensamentos retrógrados, conservadores e carolas ganham força exatamente em momentos como estes, assim como também se escancaram os medos e racismos da sociedade. Não, este não é um post que vai tratar disso. Na verdade, tudo que eu quero com ele é analisar algo que pareceu passar batido por todos, sendo só um pontinho no radar das pessoas e que acaba indo de encontro com algo que gerou uma repercussão muito maior do que o esperado. Começo com esta última. Na semana que precedia a manifestação, circulou pelas redes sociais a charge abaixo:




A charge provavelmente buscava mostrar o abismo social que ainda existe no país, onde a mãe sai para manifestação e quer levar seu bebê para participar deste momento também, mas para não perder todos os momentos, ao invés dela mesma levar, leva junto dela a babá ou empregada para carregar a criança. Cenas de um cotidiano muito normal para a gente. A charge poderia ter adicionado o celular para selfie. O que o autor da charge jamais poderia sonhar era que a primeira imagem mais compartilhada do dia da manifestação fosse esta:




A versão real da sua própria charge. A vida imitando a arte mais rápida dos últimos anos. Muito foi falado sobre assunto. Muitos atacaram a imagem, tantos outros a defenderam. O casal veio a público dizendo que a babá é contratada, com carteira assinada, que recebera dobrado por se tratar de um domingo. A babá veio a público dizendo que estava feliz de ajudar a família, que seu chefe era muito bom. Quem atacou disse primeiro algo na linha do que argumentei acima quanto à charge e depois disse que a imagem mostrava que o que se pedia era um mundo melhor para o patrão, branco e sua família de comercial, enquanto a babá negra continuará inexoravelmente sua empregada. Eu preferi não entrar nesse assunto por diversos motivos, mas principalmente porque pela imagem não temos a menor noção das relações ali estabelecidas e por acreditar que qualquer julgamento feito seria infundado. Mas algo na imagem me incomodou e me acompanhou durante o dia.

Um pouco mais tarde, no mesmo dia 13, veio uma notícia que me pareceu a pior do dia na hora:


No mesmo momento em que esta notícia surgiu, minha timeline em todos as redes sociais foram ao delírio. Imagino que o mesmo tenha acontecido com a sua. Acredito que era a primeira vez que via gente de direita e de esquerda comemorarem o mesmo fato sem ter um esporte como pano de fundo. E foi essa reação que realmente me incomodou. O fato em si estava estabelecido. Mas podíamos reagir de diversas maneiras e não estávamos. Explico porque me incomodou. Para o Aécio, Alckmin e Matarazzo, ser vaiado e ter de sair rapidamente da manifestação não era ruim, era um infortúnio, mas nada mudava no grande plano das coisas: a manifestação seguia firme e forte e, quiçá, este fato que havia ocorrido com eles fosse até aumentar sua força. Essa manifestação é amplamente protegida por eles. Eles chegaram a gravar videos e imagens convidando a todos a participar. Eles prepararam a PM para ser solícita, tirar fotos, posar como protetora dos bons costumes e das famílias de bem. Eles chegaram a pedir para o metrô fazer hora extra:


A situação é toda ridícula e absurda. O tamanho de um apoio destes mostra na verdade o quanto o jogo do poder esta desbalanceado. Quando vai de encontro com o que o governo do estado de São Paulo espera, o metrô é garantido (chegando até a ter catracas liberadas para um evento do mesmo estilo no ano anterior: http://spressosp.com.br/2015/03/16/manifestantes-anti-dilma-sao-agraciados-com-passe-livre-metro-em-sp/), a PM participa como se esperaria dela nos outros 365 dias do ano (hey! Este ano é bissexto) e quando não vai de encontro, as cenas que vemos são muito piores:




Se eles, os vaiados não quisessem esta manifestação, temos certeza que a reação da PM, a pressão do Estado, as discussões seriam muito diferentes. Ser vaiado fez quem estava na Paulista pensar que havia mostrado para eles, que corruptos "não passarão". E eles sabem que isso sumirá muito rápido uma vez que seja alcançado o que eles esperam. Até estranhei de ver tão abertamente assim colocado na Folha de São Paulo:




Mas voltando ao ponto, não cabe entrar no mérito das outras manifestações, mas você pode se perguntar se transportes públicos com aumentos abusivos, a falta de verba para educação, entre uma série de outras demandas não eram tão importantes, ou pelo menos, tão justas, quanto a do dia 13? Quando teremos a Marcha da Merenda? Ou este não é um assunto sério? Então porque no domingo todos puderam ir sem embate, sem problemas, usando o verde e o amarelo, enquanto nas outras manifestações os que foram tiveram de usar casacos grossos, proteção para o nariz e a boca e correram o risco de serem expostos a violência física, a sangrarem? Você acredita que os que foram feridos, ou foram acertados pelos gases das bombas de efeito moral ou de pimenta não preferiam estar andando lado a lado com a policia, tirando selfies e sendo ovacionados pela nação por estarem lutando por todos os que não foram, afinal, todos usamos os transportes públicos, todos precisamos de educação, e todos sabemos muito bem a diferença de uma boa nutrição.

Mas não é assim que acontece. Afinal, quando se vai contra alguma coisa, você normalmente encontra uma reação. Quando se nada contra a maré, a maré tenta te obrigar a ir pelo outro caminho. Muito mais fácil é nadar a favor da maré. E foi por isso que a imagem da babá e das crianças tinha me incomodado muito: quando que esta babá e estas crianças poderiam ir em qualquer uma das outras manifestações que falei aqui? E foram muitas e muitas. Mas a gente sabe que a resposta é: nenhuma. Nenhuma! Os país jamais deixariam, sendo que muito provavelmente as crianças estariam brigando pelo próprio futuro delas, afinal, se a escola pública for boa, forte, com boa nutrição e for o melhor caminho para uma universidade pública boa, forte e reconhecida, melhor para elas e melhor para todas as famílias. Se ela ainda puder chegar na escola e depois na universidade por um transporte público limpo, bem gerido e barato, quem não vai ficar feliz, certo? Mas manifestações que não estão corroborando com quem controla as coisas de verdade não é lugar para crianças, para animais de estimação e nem para beber champanhe. Todas cenas deste último domingo.

Agora, em um ponto muito menor, vale lembrar, que sempre foi destacado nesta e em outras manifestações contra o governo federal o fato delas acontecerem de domingo, sem prejudicar ninguém. Aqui em São Paulo, elas acontecem na Avenida Paulista, coração da cidade. A Avenida Paulista é fechada nos domingos para pedestres e ciclistas, como uma maneira da população tomar a cidade. Conheço muitas pessoas que moram nos entornos e leio em diversos meios o quanto a Paulista fechada atrapalha o ir e vir e que isto é um absurdo. Só ler comentários nas páginas que anunciaram o fechamento e você vai ver estes e muitos outros. Tenho quase certeza de que esta seria novamente a mesma posição que uma boa parcela da sociedade iria assumir se as manifestações do MPL, professores e tantos outros mudassem para o domingo. Claro, só fazendo para ver, mas na dúvida, melhor fazer no dia que mais atrapalhar mesmo, para dar mais chance de ser ouvido.

A sensação de descontentamento cresce em todas as camadas, e hoje me parece ser impossível não ser afetado de alguma maneira. Quem sabe um dia se estude o que a angústia gerada por tempo tão prolongado possa causar de problemas para todos, mas é certo que algo precisa mudar. A população pareceu finalmente se interessar pela política e apesar de ainda ter um caminho muito longo para sermos todos conhecedores melhores da nossa política, da política mundial, do sistema jurídico e da nossa constituição, acredito que o primeiro passo possa ter sido dado nestes últimos anos. É preciso só nos mantermos conscientes, prestar atenção nos acontecimentos e estamos sempre abertos ao diálogo e principalmente a mudar de opinião. Para fazer esse pequeno post que só esbarrou em um assunto dos muitos e muitos que levantou, eu precisei ler um bom número de artigos, coletar quase 50 imagens (para usar só estas poucas aqui, a grande maioria foi de absurdos da manifestação do dia 13) e ainda assim não estar tão certo do que colocar. Afinal, aqui eu estou adentrando uma área que não é tanto do meu domínio, diferentemente do que fiz no post anterior, quando falei de Lei Rouanet e leis de incentivo, que é um assunto que domino mais. Apenas percebi que este fato, que para mim pareceu muito claro, não havia sido comentado abertamente em nenhum outro lugar. Se por algum acaso você ler este post e tiver lido em algum outro lugar, algo que fale parecido ou que contradiga completamente, deixe em comentário o link do mesmo. Agradeço muito a possibilidade de aprender mais sobre o assunto e ter acesso a outras visões.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Seu Rouanet e um mundo mais difícil






Vivemos em um mundo muito mais complicado. A minha geração pegou exatamente o começo desse bonde. Até o final dos anos 90, a única maneira de se inteirar de um assunto era via a mídia, fosse ela escrita em jornais ou periódicos, ou pelo radio e tevê. Você tinha de confiar em algum meio para ser seu canal de chegada de informações. O que acontecia no mundo? Você precisava esperar o horário dos jornais na tevê ou no radio para saber o que aconteceu no dia. Se fosse alguma coisa muito importante, interrompia-se a programação. Se não você poderia ficar sabendo só no dia seguinte ou no final de semana.

Hoje as coisas são muito mais rápidas. Se antes você ligava e deixava recado, hoje, se a pessoa não atende o celular ou não responde sua mensagem na hora, você já fica puto. Tudo se resolve na hora, em uma ligação, em uma mensagem. Do seu celular você pode fazer as compras de casa, pagar as contas, pedir um taxi, pedir a janta, ler um livro enquanto ouve um podcast ou uma radio. Melhor do que rádio, você cria a sua própria. Nada mais de esperar tocar a musica que você gosta, agora a musica que você gosta, e a próxima também, e a seguinte.

Com a velocidade atual, o seu julgamento tem de ser mais rápido. Você não pode mais perder tempo de se inteirar sobre um assunto para ai se posicionar. Você é bombardeado por informações e opiniões durante o dia inteiro. Qualquer rede social que você entre você tem algum dado extra para atualizar o que você sabia sobre algo. A gente lê menos. Lemos a chamada da notícia, porque notícia sai o tempo todo. É notícia em tempo real. Então, no final, julgamos e decidimos de maneira rasa. Não sempre, claro. Mas no dia a dia, nas coisas corriqueiras. O que não tem a ver diretamente com a gente.

Antes, para se entender de economia, judiciário, política, tínhamos de procurar notícias nos jornais, com cuidado. Eram poucos veículos, então quem ficava nos cargos acabava entendendo e se aprofundando mais sobre o tema. Vagas mais concorridas. Claro que hoje tem de se estudar muito ainda, se aprofundar. Mas quem faz o hard news, não necessariamente. E sempre lembrando, que o que importa hoje, é click. Quanto mais espalhafatosa a chamada, mais cliques ela vai trazer.

E com essa profusão de links, de chamadas, de notícias, uma pior que a outra, uma mais chamativa que a outra, fica difícil saber no que confiar (para mim, pelo menos), e também, muitas vezes, entender exatamente o que acontece. Eu sempre me preocupo com os julgamentos rápidos, ainda fico meio aturdido com quão voraz são os julgamentos atualmente, e o quão sem meio termo eles parecem ser. Ou se é, ou não é. Ou está certo, ou esta errado. E a sensação é que viramos uma grande briga de torcidas. Eu procuro não entrar nessas discussões, ainda mais na internet, onde é muito fácil se partir para um ataque e se esquecer o que esta sendo mesmo discutido. Mas nesta semana uma situação me fez querer participar.

A cantora Claudia Leitte aprovou na lei de incentivo a cultura federal, a Lei Roaunet, um projeto de um livro biográfico. O valor aprovado é de 356 mil reais. E uma parte da internet veio abaixo descendo o pau no projeto, na cantora e, principalmente, no governo e no ministério da cultura do país. "É isso que estão fazendo com o nosso dinheiro?", perguntam-se alguns. Mas sendo sincero, eu sei que pouca gente entende exatamente como funciona a Lei Rouanet, ou qualquer outra lei de incentivo a cultura.

A Lei Rouanet é do final de 1991. Ela meio que nasceu do fim da Lei Sarney, que tinha um caráter parecido. Apesar de existir desde o começo da década de 90, só começou a engrenar mesmo no final da década. Ainda assim, em relação ao que é arrecadado hoje em dia, os valores do final da década de 90 ainda são muito baixos. Podemos dizer que ela passou a ter alguma importância por meados dos anos 2000. E isso foi muito importante para a cultura do país. Fazer cultura no país era quase um chamado, um voto de sofrimento e pobreza. A não ser, é claro, que você fosse agraciado pelo apoio de uma das grandes televisões nacionais. As leis de incentivo vieram dar oportunidade para se criar e democratizar e diversificar a cultura no país. Ela é uma maravilha? Muito longe disso. É como deveria ser? Também não. Mas para a sorte da lei, ela sempre esteve nas mãos de pessoas muito interessadas em fazer a coisa funcionar de maneira direita e decente. Tiveram vacilos e escândalos? Sem dúvida!!! Muitos, só assim, agora, quase as 5 da manhã, eu lembro de dez sem ter de parar para respirar. 10 dos grandes, muito maiores do que o livro da cantora.

Mas o importante é entender como ela funciona, e isso é muito simples na verdade. Para inscrever o projeto, você precisar saber o que é o seu projeto, qual o objetivo dele, quais contrapartidas você oferece tanto sociais, quanto ambientais. Precisa também de um bom levantamento orçamentário. Nesse orçamento, você vai detalhar cada um dos cargos e gastos que você terá no projeto. E finalmente você precisa ter uma boa justificativa para explicar o porquê do seu projeto merecer ser aprovado. Uma vez que você envia tudo isso pelo sistema, você vai precisar enviar toda a documentação do projeto, isso é, todas as certidões suas ou da empresa que esta propondo o projeto, cartas de intenção de participação no seu projeto de todas as pessoas que você disse estar envolvendo, locais que você disse que vai fazer o seu projeto e afins. Tem bastante documento, mas não é um bicho de sete cabeças.

E ai, o que acontece? Bom, ai seu projeto vai tramitar em dois pontos, primeiro pelos pareceristas técnicos, que irão ver todo seu orçamento e dizer o que esta dentro ou fora do mercado, cortando todos os valores muito altos e baixando tudo para valores de piso. Depois, seu projeto vai para a CNIC, a comissão nacional de incentivo a cultura. Nela, pessoas de diversas frentes, como artistas, produtores e pessoas da sociedade civil, leem todos os projetos e votam quais estão dentro dos parâmetros e tem justificativas pertinentes de expandir e chegar a mais pessoas culturalmente. Nisso entra muito em foco se os valores que serão cobrados são populares e, principalmente, se vai expandir o público que desfruta cultura normalmente.

Ai, maravilha, aprovam seu projeto! Que felicidade!!! Mas no final, não. Isso é básico. Afinal, se você seguir os parâmetros, e for um projeto cultural de fato, aprovar é o caminho comum. Aprovavam-se tantos projetos por empresa que a Lei Rouanet mudou e agora só se pode aprovar 5 projetos por cnpj ou cpf por vez. E isso é um bom momento para falar. A Lei Rouanet deve ser a lei mais viva no país. Ela mudou muitas vezes e irá mudar quantas vezes mais forem necessárias. E por que? Porque o brasileiro é muito criativo e sempre encontra maneiras diferentes de se aproveitar de uma legislação. Mas a Lei Rouanet, ao invés de ficar parada, estática frente a este aproveitamento, vai e muda o texto para cortar as asinhas de quem se aproveitou. Muitas vezes isso pode acabar atrapalhando as pessoas que estão interessadas em realmente utilizar de maneira correta aquela lei, mas ao mesmo tempo. impede que pessoas se aproveitem. O exemplo mais recente é a mudança de tirar a possibilidade de aprovação de projetos que poderiam ser produzidos sem a ajuda da lei. Isso, sem dúvida, incluiria o projeto do livro da Claudia Leitte. Mas o projeto foi inscrito, provavelmente, muito antes dessa mudança da lei ter sido escrita, quem dirá, aprovada. E ainda não está em funcionamento. Então, por enquanto, tudo dentro da lei essa aprovação.

Mas e ai? O que vem agora? Bom, agora você precisa captar o dinheiro do seu projeto. E como se faz isso? Bom, ai não é fácil. Você precisa encontrar uma empresa que esteja em dia com o leão, como todos os pagamentos direitinhos. Além disso, a empresa precisa ter lucro (e por enquanto não pode estar em lucro presumido, mas isso também esta para mudar). Além disso, seu projeto precisa estar dentro do que a empresa esteja procurando. AH! E claro, a empresa só pode destinar para a cultura, 4% do imposto que deverá pagar no ano seguinte. Isso é, 96% continuarão sendo pagos para o governo.

E o que a empresa ganha com isso? Bom, ai varia muito. No seu projeto você já precisa preparar o que você vai poder oferecer para empresa como contrapartida. Muito é a mídia que será gerada a partir do projeto. É como se fosse investir em propaganda, mas sem colocar a mão no bolso. Além disso, muitas vezes se fazem ações de marketing integradas.

E onde está o problema disso? Oras, está no fato que você esta dando na mão das grandes empresas do país o destino da cultura do país. Elas escolhem os projetos que serão produzidos e os que não. Isso é péssimo. E isso é uma das maiores preocupações do ministro da cultura, Juca Ferreira. Por isso ele criou o FNC, o fundo nacional da cultura, que é um fundo que agracia projetos culturais com o dinheiro para eles serem produzidos. Quais os critérios e como se inscreve? O processo é parecido, mas os agraciados são normalmente projetos fora do eixo Rio-São Paulo, para privilegiar todas as áreas do país e as mais diferentes áreas da cultura. Isso é bom, porque divide a função com as empresas. Mas novamente, o destino da cultura fica na mão de alguém ou algum órgão. A diferença do estado e das empresas para a cultura de um povo é muito pequena. O ideal é que a cultura fosse autogerida e autossuficiente. Mas não é. Ainda não.

Além disso, outro medo do ministro, é que a lei esteja deixando os produtores muito mal acostumados. Afinal, se começa um projeto só quando tudo já esta pago e todos os salários certos. Qual o compromisso e a busca pela formação de público ou pela criação de caixa para que a próxima produção não precise de Lei? E por isso ele vem procurando mudar e, quem sabe, acabar com a lei um dia.

Mas como pode se ver, a lei não dá dinheiro diretamente para projeto nenhum. A aprovação segue apenas parâmetros pré estabelecidos e levantamentos de orçamento e justificativa. Depois disso, tudo depende muito do produtor e ainda tem muito trabalho pela frente até o projeto sair. Nada é garantido. Existem muito mais projetos aprovados que nunca são captados, do que projetos que são captados. E a grande maioria das empresas desconhece, ou tem medo, ou não quer nem entender o funcionamento da lei.

O que é cultura? Quem pode falar isso sem deixar lados importantes de fora. A cultura é conceito fluido e que muda muito rápido, na mesma velocidade que nossa vida muda. Expande e inclui. As leis de incentivo tentam ajudar todas estas áreas e dar alguma chance de projetos florescerem, sem preconceitos e sem tentar dizer o que é e o que não é cultura, sem impor e sem direcionar. Todos os projetos tem a mesma chance de ser aprovado, se bem feito e trabalhado e o dinheiro público tem também de ser empregado na cultura. E vale lembrar, essas leis de incentivo existem pelo mundo todo, com funcionamentos diferentes. Nos Estados Unidos, muitas cidades e estados abaixam ou abatem completamente, os impostos de cinema ou teatro, para trazer as grande produções para dentro de suas fronteiras. Os impostos são dinheiro público também, mas eles abatem estes valores por saber a quantidade de postos de trabalho que abrirão e a quantidade de dinheiro que girara em torno. O processo não é o mesmo, mas também tem dinheiro público sendo deixado de lado para produções culturais.

É preciso sempre buscar entender o funcionamento das coisas e seu histórico para não se julgar uma situação apressadamente e deixando espaço para não se ser direito ou correto. Claro que depois de ler tudo isso, você ainda pode não querer um livro da Claudia Leitte, afinal, eu também não quero, mas tirar a opção dela utilizar do mecanismo que é aberto a todos é errado, pelo menos por enquanto. A lei vai mudar muitas vezes ainda, sempre tentando proteger o interesse de todos e tentando dar poder a cultura nacional e não deixar o dinheiro publico ser mal utilizado.